Anoitece e Frida vem reclamar meu ser. Me invade sem respeito nem cuidado e me revira por dentro. São estes os dias que me empresto a ela.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Alternativa



"...Eu entendo a juventude transviada
Uma mulher não deve vacilar
Cada cara representa uma mentira
Nascimento, vida e morte, quem diria..."

Se o melhor conselho for o silêncio?
Se jogar não fizer nenhum sentido?
E se sorrir não for o melhor remédio?
Ou se meu tédio não passar?
Se eu não ouvir melodias leves?
Se eu não quiser palpites?
Se eu não gostar de opiniões?
Se eu for livre?
Ou for cruel comigo mesma?
E se eu for fraca?
Se eu tiver contratempos, uma pausa pra quaresma?
Cortar as fotos em tiras?
Não suportar viver de mentiras?
Ou aceitar alguns dias tristes?
Se eu não quiser mudar?
Ou preferir ficar sozinha?
Detestar as canecas da cozinha?
Se eu faltar à missa ou nem sequer acreditar?
Se não houver esforço pra esquecer?
Ou a razão pra me curar?
Se me desfaço em contradições?
Ou não tolero suas diversões?
Nem seu sorriso, nem tanta confiança?
E se eu agradar meu ego?
Se eu não quiser mais dançar?
Ou não mais souber o passo da dança?
E se um mês for muito pouco?
E cinco meses for tempo demais?
E se eu preferir ficar muda, ignorar os sinais?
Ou se gritar alto esse desejo?
Mudar os meus planos, começar um novo ano?
E se ainda não tiver idade?
Ou identidade?
Se eu me orgulhar do meu nome Verdade?
Ou se esse fosse meu único orgulho?
Se eu não visto minhas roupas usadas?
Se eu quero ser respeitada?
Eu quero.

Eu não preciso de terapeutas, nem de drogas de farmácia. Quero me sentir. Tenho direito a estação, a opção, a prestação. Eu não simulo boas fortunas, não aparento o que não sou. Se for isso o que chamam loucura, não me importo em me deitar com ela. Não vou agir por convivência nem me esforço pra ser mais um reles, normal.

Frida

Mudança



"...Me explica;
Me diz onde vim parar,
Pois quem sempre esteve aqui;
Já não está.
Eu tento imaginar outros planos,
que o tempo lento parece desfocar..."

Arrancar as fotos da parede era de tudo a tarefa mais dolorosa. Talvez ela pudesse deixá-las ali mais um tempo. Mas sabia que não devia. Ou tinha realmente dúvidas. Não sabia de nada, mas se lembrava do que lhe recomendavam fazer. Nessas horas de mudança, todos sugerem algo, porque o que se quer não é o ideal. Ela nem tinha certeza se tudo que quis um dia era o ideal. Talvez tivesse errado sempre, talvez acertado, talvez sido feliz, ou não. Tempo de incertezas batendo na porta, uma insegurança que se materializava debaixo dos olhos vermelhos. 'Alergia irritante deixando meus olhos e o nariz assim. Alergia, é só alergia.'

Os CDs embalados nas caixas, filmes e músicas, as cartas. Roupas de cheiro bom que ia se perdendo no meio da bagunça. Ou não sentia mais cheiro porque são as roupas que ela costumava cheirar pra dormir melhor. As roupas perdem o cheiro próprio quando se dorme com elas. O plano era sempre trocar as peças pra que o cheiro sempre a fizesse dormir. 'Preciso de um plano novo.' Quem sabe alguns comprimidos esquecidos na gaveta? Na hora da felicidade, sempre se esquecia dos amigos comprimidos.

Colocou na caixinha uma blusa xadrez, alguns pedaços de panos velhos. Um nariz vermelho de plástico e queria colocar também a vermelhidão do seu nariz doente. Queria colocar a lembrança, a parte da cabeça que a impedia de pegar no sono. Jogar lá todo e qualquer sentimento, os ruins e os bons. E mandar eles todos de volta. Devolver como se devolve um CD arranhado a um amigo displicente. Ficar fazia e limpa de todo. Sem marcas. E depois tomaria de volta as parcelas felizes, os risos, a festa, a luz. E ficaria bem. E bem rápido. Pensou que ela já tinha escrito tudo o que ela sentira da outra vez. Ele sabia como ela estava agora. Ela se revelando de novo, em páginas que ela mesmo entregara em crédito à sinceridade. Era sempre tão sincera e agora isso a traia. 'Que vergonha!'

'Mudanças são sempre complicadas assim mesmo. Eu sei.' Pensa em quantos diversos outros dias vai ter de sentir novamente. Desânimo. Vontade de deitar. Dormir. Ou mudar de apartamento, de cidade, de país. 'Mudar de país me parece tão interessante. Sempre quis mudar bruscamente de ares.' Se lembra da viagem programada. E em todos os planos ela não está sozinha. Não quer mais viajar, nem mudar de país, nem Alemanha nem Rússia, nem filhos, nem casa vermelha, nem filmes, nem rock nem roll. Até Marx agora perdeu a importância. Só ela é importante. E o que ela quer fazer agora, sendo certo ou errado. Ela quer se deitar, deixar a mudança pra depois. Ou nem mudar coisa nenhuma. Ficar assim. Deitada com o nariz doente.

Frida

sábado, 10 de outubro de 2009

Amanhã




"...How the hell did we wind up like this?
Why weren't we able, to see the signs that we missed
And try turn the tables
Someday, somehow
I'm gonna make it all right but not right now
I know you're wondering when..."


A hora em que volta a consciência. A pior de todas as horas, a mais cruel. Acordar é sempre o mais difícil. Ou se sentir acordada quando a vontade é dormir. À noite a vida parecia mais fria, mas dormir era um alívio por tal falta da verdade. A verdade que se quer esquecer. Acordar era ter tudo ali, bem vivo, respirando mais que ela. Respirar também era difícil naquele dia tão frio de verão. E sentia o sol no rosto atravessando a janela no quarto esquentando tudo que fosse superficial. E lá dentro: o frio.

Ainda de olhos fechados, vem a consciência de como a vida parece mudada de repente. Ania abriu os olhos e se enxergou tão viva que os fechou bem rápido de tanta dor. Acordar, respirar, se sentir viva. E a dor. Ela que vem batendo na porta das pálpebras cobrando a dívida que Ania não quer pagar. ‘Vamos, abra os olhos, enfrente a vida’. A dívida de abrir os olhos e suportar as imagens que eles irão ver como num filme antigo. Procura pela raiva, sua protetora. Ela é menor do que a raiva de ontem que a cada dia a abandona mais. A raiva a largando a sós com a própria dor. Está agora suplicando pra que esse sentimento sublime de desafeto não a deixe sozinha. Quer prolongá-lo até quando puder. Quer deixar a respiração mais fácil e necessita da indignação. Mesmo se não há mais motivos para tê-la. Mesmo se a raiva insiste em ir embora por falta de razão pra existir.

Agora a lembrança do que ela já fora e o que parece ser deitada na cama. A fortaleza perdida entre os lençóis. Fragmentos da cólera de outrora não encontrados debaixo do travesseiro. Como uma noite de sonhos pode dissipar um alicerce? Não se sente sozinha. Não há vazio. O que toma conta do estômago é um desengano. Seu engano não era com ninguém, não tinha alvo físico. Era a vida que a enganava. Ora se mostrava fácil, ora difícil demais. Não conseguia acompanhar essas mudanças bruscas de realidade. Ora era amada, ora não. Era incapaz de acompanhar as mudanças bruscas do amor.

Quis dizer a ele que a raiva não era do que ele costumava ser, a gana era de amor. Era de não conseguir imaginar alguém aceitando a solidão como um caminho. A raiva era da fuga, do medo, da falta de explicação para a distância. Ira daquela comodidade em sofrer só, para afastar um sentimento conjunto. Talvez ele não a amasse mais, mas ela não acreditava nisso. É complicado conhecer quem se ama. Ela não entendia como ele podia pensar assim. Era melhor que não a amasse ou procurasse por outra pessoa. Mas desistir do amor era tão triste e ela nem suportava aceitar esse destino para aquele alguém que ela amava tão puramente. Quis dizer isso tudo a ele, que não entendia e que era muito triste, mas não disse. Ficou calada, pediu pra ele ir embora, sentiu a cólera bem mais forte que nunca. Sentiu-a pulsando em todo corpo vermelho de sangue revirado. A revolta bombeando o sangue.

Quis muito sacudir aquele corpo conformado na sua frente e pedir reação. Suplicar que suportasse e não desistisse de sentir, que não adiantava ignorar o sentimento. Isso não fazia sentido algum pra ela que era tão passional. Ignorar o sentimento parecia tão fundo, tão vazio. E depois lhe ocorreu que um sentimento que podia ser ignorado era um sentimento qualquer, um sentimento sem importância. ‘O meu amor não é assim. Meu amor não pode ser simplesmente ignorado como se afasta um pensamento ruim. É um amor muito mais forte que isso, um amor bem mais forte que o seu. ’ Queria dizer, mas não disse. Saiu correndo paradoxalmente pra fugir daquela mesquinhez que ameaçava o amor que ela defendia tanto. E o surto de raiva a estremecendo compulsivamente. Palavras tão eficazes pra abrir uma ferida e encerrar uma discussão.

Ele lá sem compreender aquele súbito descontrole: um escândalo. O que não devia o assustar, pois ele bem conhecia sua intensidade em sentir. Mas a prática nunca é como se espera. Ele nunca tinha sido alvo de tanta ira, não tão expostamente como naqueles extensos segundos. O ódio nu. E não entendeu que na verdade o alvo não era ele, e sim aquelas palavras que subestimavam um amor tão declarado. O alvo era aquela submissão ao imutável, que não aceitava o desafio pra ser feliz. A raiva era disso tudo que ela presenciara naquele dia frio de verão. Nisso tudo que ela pensava deitada olhando fixamente pro teto do quarto, cansada de tentar lutar contra a dor. Cansada de fechar os olhos.

Talvez um dia ele compreendesse que esse pedido era impossível. Fingir não estava no seu intimo. Não era alguém que fingia. Até então, era isso que ela pensava que ele amava. E agora ele pedindo a ela pra suportar. Talvez um dia ele entendesse a incapacidade de Ania em ser cruel consigo mesma. Ela não aceitava provocar o mal a ela mesma como ele fazia a si mesmo. Ela não queria ignorar nada. Não queria fingir uma felicidade inexistente. Não queria que sua vida ficasse simplesmente um tudo bem mesquinho. Ania queria ser feliz outra vez. Sem mentiras. De verdade.

Frida

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Descoberta




"...Vai, começe a pisar
nas folhas caidas no chão
ouça o barulho que isso faz
e esqueça a idade em suas mãos
porque a música fica mais alta
se você quiser escutar.
Eu acho o diferente mais bonito
e todos dizem que é muito esquisito
eu gostar do que gosto..."
Felipe Godoy


Então suspirou bem fundo e sorriu. Pensou na resposta pra essa pergunta por tantas pessoas feita e que outrora a incomodava tanto.
Para a menina, a pior mediocridade do homem era se acomodar a falta de vida. E com pavor ela suportava o precipício do futuro esperando para desprovido de sequer uma gotinha de pena, transformá-la em comodidade. A mocinha já sentia seu mal cada vez mais próximo. Mal que se aproximava sem escrúpulo algum a tornando cada vez mais acostumada a ser nada e nada fazer quanto a sua infelicidade. Uma solidão sem remédio. Ela já conseguia ver bem ali em sua frente, uma pessoa tão mesquinhamente comum, sem vida, sobrevivente. Antes a morte que a sobrevivência.

Ao contrário do que esperavam dela, esta miserável forma de vida não significava não ter uma boa carreira, filhos ou um casamento bem comemorado. Ela renunciava a tudo isso com uma veemência que tinha mais cara de medo. Só que ainda não conseguira entender o que planejava seu íntimo sedento de felicidade. O que sabia era que necessitava intensamente de vida. Justo ela, que era pálida de tão apática. Uma palidez vazia, de quem pouco tempo tem para encontrar um sentido. Como se o fim a esperasse na esquina. Como se quando feliz ela conseguisse ser, a vida acabaria de tanto sentimento bom.

( Ô garotinha destrutiva essa! Confesso que ás vezes me sentia enfadada de repará-la. Um fardo pesado ter de acompanhar sua existência desinteressante.)

É cruel quando se passa a ter medo de você mesmo. Era ela quem a menininha temia. Medo da sua fraqueza demonstrada, da descrença, ilusão, uma fragilidade sem cor. Medo do que aquela mulher que se abriria num ovário preparado pudesse fazer de uma garota tão fracamente disposta. Toda ela era desmaiada.

( Acho que logo agora eu a julgo mal. Disposta ela era, faltava-lhe o caminho. )

E foi nesse tal dia, diante essa tal pergunta que se descobriu mudada. Não que a mudança fosse algo repentino. Ela mesma era a mais resistente a bruscas modificações. Guardava velharias com um complexo amor materno anterior aos filhos que nunca sairiam de dentro dela ( Novamente o tal receio do próprio ventre).

Mas enfim, vamos retornar ao tal dia frio, um tanto nublado até, dia feio como aquele em que nasceu essa estupidazinha. Foi numa manhã esdrúxula e tempestuosa, de aparência vazia que ela sorriu. Lábios até bem comedidos comparados ao alquimista que acaba de decifrar a fórmula filosofal. Procurou pelo medo. Inexistente. Então foi ter com a razão daquilo tudo, o motivo e o tempo duma metamorfose maluca. Sim, porque o propósito já lhe era conhecido. E estava ali, pulsando vermelha: a vida; toda dentro dela que era tão pequena. Sentiu-se borboleta. E toda uma existência de larva já parecia tão distante. Sem a costumeira nostalgia dos iniciantes insetos medrosos.

Revirou-se toda procurando pelo tempo de lagarta. O intermédio de uma transformação tão surpreendente para sua limitada compreensão juvenil. E a partir daí começou a perceber o que um ano e meio tinham feito dela. Aquele último ano conturbado e cheio de insatisfações.

Então se culpou por não ter percebido tão grande mutação que vinha acontecendo em si. E se julgou ainda mais severamente por não reconhecer a razão de toda uma pupa construída. Ou melhor, o que havia possibilitado sua construção. Uma tal folha verde que havia suprido a sua falta de disposição para alimentar-se. Sua verde reserva; sua verdade. “Malditos olhos de lagarta inúteis e cegos.”. Olhos novos: VIDA.

Percebeu nesse momento que era bom estar ali. E pela primeira vez sentiu que a vida era bem mais fácil do que ela pintava. Agora ela tinha muito o que fazer, andava muito ocupada. A insistência da folhinha companheira em recuperar aquela lagartinha incolor, fez com que ela aprendesse a voar. Era uma borboleta carmim. Vermelha de tanta cor.

“O que tem feito menina?”
“Tenho sido feliz.”

Uma nova resposta incomum para uma velha pergunta triste.

Frida

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Caso



"...Abrindo as portas pro seu elefante branco entrar
Contando as desformes formas que tenho pra estar
Quem sou que não mais quer ser pincel pra pintar
As coisas estranhas que penso e sou mais tarde
E as tantas histórias que empilham palavras na estante..."

Então um dia ela o beijou
Interrompeu uma fala comedida
E pediu pra que ficasse um tempo a mais
Ela já não era imprecisa
Como fora há um tempo atrás

Ele disse: “Só queria te ouvir.”
E tremia ao telefone
Ela o disse em baixo tom
Que ele a fazia sorrir
Quando transmutava seu pequeno nome

Ele a pintava da coragem
Que acreditava que ela tinha
E tímido confessava ter medos
Ouvindo inúmeras bobagens
O temer dela em ser sozinha
Quando ela chorando, assumia seus defeitos

Ele quis fazer de tudo um pouco
Ela ria e ele se achava bobo
Pensou em gritar pro mundo todo
Nem teve medo de ficar rouco

Viver parecia tão fácil
Quando ele ouvia suas desventuras
Ela sentia tanto detalhe seu reparado
E narrava sua falta de tédio
Como num dia um tanto quanto desastrado
Disse a ela numa sinceridade sem remédio
“Posso dizer que estou apaixonado!”

Frida

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Praças



"...And the feeling that its all a lot of oysters, but no pearls
I am so ambitious for a juvenile
Cuz I like to be gone most of the time
If I stay in one place I lose my mind
I'm a pretty impossible lady to be with
I have trouble acting normal when I am nervous..."


Desejo as folhas caídas
Tons de verde remetem a vida
Não suporto esta cor

Quero mortas as flores
Quero folhas mortas

Expostas pessoas, sorrindo
Mascaram nas faces
Nossa busca por resposta

Tal ausência de perguntas
Comodidade, carência
Nesse mundo-banalidade

Sons de chaves batendo
Diálogos superficiais
E estas flores ainda crescendo
Impessoais nomes, vazios
Daqueles que marcham iguais

Gente que anda, carros com pressa
Aprisiona-se em pedaladas
As bicicletas condicionadas
Tantas mentes vagas se atrofiam
Com propagandas, falsas gargalhadas

Passos uniforme, disparados
Anúncios, chaves, carros
Sons devidamente sincronizados

Melodia assoviada
Chaves que batem na calçada
E na calça do senhor

Verde claro, verde pinho, verde musgo, verde
Eu não suporto mais essa cor
Aquarela minha e individual
Escuros, preto, o meu vermelho
Violetas que voam das pontinhas dos meus cabelos

Movimento, som, movimento
Avulsas palavras, soluços convulsos
Carros que rodam esmagando pensamentos
Chaves que batem violetas que voam
Rostos constantes, passos exaustos
Vacilantes
Harmonia irritante

Folhas nunca caem
Pessoas nunca calam
Imagens banais
Flores crescendo
Violetas voando
Fim de tardes naturais

Então deitada no largo banco
Num instante me levanto
Alguém diz: “Hey Bruxinha!“
E sorri.
Vejo e sinto as borboletas
Num lampejo de desejo
Meu sorriso e frenesi

“Bruxinha, Bruxinha!
Ruiva. Bruxa.”

E a voz me desconcerta
Um segundo e me desperta
E com pesar eu me despeço
De um sorriso desconexo

Procuro pesadas certezas
E olho em meio às violetas
Eu digo: “Shhh... Silencio!
Estás apenas na minha cabeça!”

Frida

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Os mágicos sorriem


"...Vagalumes. Porque será que o vagalume pisca? Talvez ele não tenha o poder de piscar, mas à cada abraço que recebe, se cobre com o corpo que o envolve. Doando assim sua luz, então, há por segundos ausência da claridade. Quando vemos isso acontecer, ficamos com a impressão de que o 'ser minúsculo' está piscando, mas o inseto está apenas se lembrando dos abraços que recebe da Tangerine... "
Felipe Godoy

Era um estado novo. A menina não sabia antecipar as conseqüências daquele sentir complexo. As conseqüências que mais tarde poderiam se materializar nela. E nele. Ela só sentia. Não existia definição. É difícil separar o certo do errado num momento tão difuso. Errado é definir dias difusos.

Enquanto mais ela despistava os pensamentos e fazia de um esforço notável pra não ser egocêntrica, ela era. Então fugia das idéias que ameaçavam fazer dela mais feliz. Imbecilidades de meninas que se julgam mais sensíveis que as outras. O sentimentalismo lhe caía bem. A infelicidade lhe caía bem. Provava pra ela que tanto tempo não fora ilusão da sua mente idealizadora. Que seu interior podia ser sublime como ela pensara um dia. Como se fosse o tempo que demarcasse a grandeza da vida.

Mas do fato ela não podia mentir. Era ele que a fazia sorrir. Há tempos o seu sentimento perfeito e altruísta não lhe fazia tão bem. A verdade é que ela só desejava ser altruísta, mas sentia prazer mesmo no egocentrismo da alma. E mesmo agora tentava inutilmente agir com desprendimento da sua vaidade perdida. Mas o prazer a tocava quando o egocentrismo a tomava pra si. Ela fugia da natureza de ser egoísta. Mas sempre fora assim.

Agora ela sorria pra ele. A expressão provinha dele. E quando chorava era a emoção profunda que lhe causavam tantos versos dedicados. Músicas dedicadas a ela. E tudo mais que a tornava uma menina ruiva exclusivamente interessante. Delicadezas nunca experimentadas sem preocupação de estragar o que ela descrevia como perfeito e imutável. Uma fidelidade sem razão.

Passara aquele desespero de quem se afoga num abismo sem volta. De quem perde seus dias contados por ampulhetas de areia. Aquela tensa bomba relógio que justificava as imperfeições que ela preferia não crer. A novidade era uma vida leve, simplória, mas repleta de significâncias e cores.

Olhava-o com declarada admiração, atenta. Podia passar mil horas observando a forma encantadora e ao mesmo tempo hilária em que ele se comunicava com a vida. Comunicava-se até com a ausência de vida, com o inexistente ou invisível. Ou talvez algo que só ele pudesse ver. Um mundo que de tão dele nem precisava ser desvendado. Espaço criado para não ser compreendido, apenas pra fazer bem a todos. Pra arrancar alegres sorrisos de todos que sentiam sua presença. E isso era inexplicavelmente interessante. Inovador até. Místico.

Agora ele convidava a menina cor de sangue a conhecer esse novo sabor de fruta fresca. Estar por segundos que fosse naquele universo de símbolos. Esse convite tentador ainda continha a imensa liberdade que emanava de seu intimo sincero. Ele era livre e não queria prende-la pra si. Assim que entrasse, ela poderia sair da mesma forma simples e natural. Isso ela sabia de seus olhos. E mesmo que não devesse, ela ainda acreditava no que os olhos insistem em dizer sem ditadas palavra. Falar num mundo atual já se tornara clichê demais para o que ela desejava.

Frida sorria outra vez. E mais outra vez, e sempre. Sorriso sem mistério, intenção ou dor. Somente sorriso mesmo. Puro na sua mais simples definição. Uma luz que dava medo de tocar de tão forte e especial que era. Receio que ao tocá-lo, sua escuridão feminina apagasse a luz dele. Ela era escura em essência. Crescera acreditando que a resposta se dava através da complexidade. E resolveu que seria assim. Construiu-se complexa. Então hesitava nesse medo de abalar a fortaleza daquele ser de luz plena. Como vaga-lumes. Como as doces palavras que ele lhe dizia. Palavras raras, mas inesquecíveis, e que muitas vezes compunham as historias escritas por ela. O jeito inigualável que ele possuía de perguntar se tudo andava bem. Ele não a feria com perguntas necessárias como essa. Porque quando o mágico a olhava com ternura cobria suas feridas abertas com um balsamo de uma esperança inventada por ele. Esperança tão particular e utópica que ninguém conhecia, mas que ela acreditava. E se agarrava a ela como uma religião. Essa garota que não tinha religião. Sua crença estava ali. E parecia ser tão obvia.

A minúscula personagem vermelha que lutara toda a vida para confiar no que é vivo, encontrou sua prova. Ele era a certeza de sua certeza mais infantil. Frida acreditava em humanos através dele. Como um exemplo. Como mãos coloridas e mágicas.

Frida